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Dr. Guilherme Isaac@drguilhermeisaac
· Genética médica· 1 de setembro· 8

Síndrome CHILD: fundamentos e manejo

Síndrome CHILD: Congenital Hemidysplasia with Ichthyosiform Erythroderma and Limb Defects

–10 tópicos

Definição e acrônimo

A síndrome CHILD é uma genodermatose congênita rara caracterizada classicamente por:

  • hemidisplasia corporal;
  • eritrodermia ictiosiforme unilateral;
  • defeitos ipsilaterais dos membros.

O acrônimo vem de Congenital Hemidysplasia with Ichthyosiform Erythroderma and Limb Defects.

Genética

Gene: NSDHL Localização: Xq28 Herança: dominante ligada ao X Via metabólica: biossíntese do colesterol

A doença ocorre predominantemente em meninas.

Nas mulheres heterozigotas, a assimetria do fenótipo decorre principalmente da inativação do cromossomo X, produzindo mosaicismo funcional.

Atenção: isso não é sinônimo de mosaicismo somático da variante genética.

Homens com variante constitucional hemizigótica grave geralmente apresentam letalidade embrionária ou fetal. Homens sobreviventes são excepcionais e podem apresentar, por exemplo, mosaicismo somático ou cariótipo 47,XXY.

Fisiopatologia

A deficiência de NSDHL interfere na biossíntese do colesterol e produz:

  • redução da disponibilidade de colesterol;
  • acúmulo de intermediários esterólicos potencialmente tóxicos.

Essas alterações prejudicam diferenciação celular e vias de sinalização envolvidas no desenvolvimento embrionário.

Pele

O achado dermatológico típico é uma lesão:

  • congênita;
  • eritematosa;
  • hiperqueratótica;
  • descamativa ou verrucosa;
  • predominantemente unilateral.

Pode haver demarcação abrupta na linha média, achado bastante sugestivo.

A distribuição também pode apresentar padrão blaschkoide.

Podem ocorrer ainda distrofia ungueal, alopecia localizada e alterações da sudorese.

Membros

As alterações esqueléticas são geralmente ipsilaterais à lesão cutânea.

Podem ocorrer:

  • hipoplasia de membros;
  • encurtamento de ossos longos;
  • oligodactilia;
  • ectrodactilia;
  • sindactilia;
  • ausência ou hipoplasia de segmentos distais;
  • defeitos complexos de redução.

A associação pele alterada + defeito de membro no mesmo lado é um dos maiores discriminadores diagnósticos.

Outras manifestações

Podem existir alterações:

  • vertebrais ou costais;
  • oculares;
  • auditivas;
  • renais ou geniturinárias;
  • mais raramente neurológicas.

O comprometimento extracutâneo é variável.

Diagnóstico

O diagnóstico é fortemente sugerido pela combinação de:

lesão ictiosiforme unilateral + hemidisplasia + defeito ipsilateral de membro.

A confirmação etiológica é feita pela identificação de variante patogênica em NSDHL.

A biópsia cutânea pode mostrar hiperqueratose e paraceratose, mas os achados são inespecíficos.

Diagnóstico diferencial principal

Conradi-Hünermann-Happle

É um dos principais near-miss.

Também é uma doença dominante ligada ao X associada ao metabolismo de esteróis, porém está relacionada ao gene EBP.

Favorecem Conradi-Hünermann-Happle:

  • condrodisplasia punctata;
  • catarata;
  • ictiose em padrão de Blaschko;
  • alopecia cicatricial.

Favorecem CHILD:

  • forte lateralização;
  • demarcação na linha média;
  • hemidisplasia;
  • defeito de membro ipsilateral à lesão cutânea.

Outro diferencial importante é a síndrome de Goltz, que apresenta hipoplasia dérmica focal, lesões blaschkoides, herniação de gordura e alterações de membros.

Tratamento

O tratamento é multidisciplinar e dirigido às manifestações.

Para a pele podem ser utilizados:

  • emolientes;
  • queratolíticos;
  • tratamento tópico anti-inflamatório quando indicado.

Uma abordagem fisiopatológica descrita é a associação tópica de:

estatinas + colesterol.

Formulações como lovastatina 2% + colesterol 2% foram utilizadas em relatos e pequenas séries, podendo melhorar hiperqueratose e eritema.

A evidência ainda é limitada, e esse esquema não deve ser tratado como protocolo universal.

Pérolas de prova

CHILD = NSDHL + Xq28 + dominante ligada ao X + menina + assimetria acentuada.

O grande discriminador é:

lesão ictiosiforme unilateral + defeito de membro do mesmo lado.

Não confundir:

inativação do X → mosaicismo funcional ≠ mosaicismo somático da variante genética

Regra prática

Diante de uma menina com eritrodermia ictiosiforme unilateral, hemidisplasia e redução ipsilateral de membro, pense primeiro em síndrome CHILD por variante em NSDHL.

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